Marcas Profundas
O mundo está aqui em mim, tatuado, imenso em minhas costas, para eu não esquecer do fardo que carrego…
Estou aqui no mundo, como uma chaga, uma espinha purulenta pronta para explodir. O mundo está em mim como um peso morto de zilhões de quilos nas costas, um fardo inútil que não há como me livrar, descartar. A casa do caramujo que fica pequena demais mas não há como trocar. É necessário carregar e carregar, pra todo lugar.
Esses dias nunca foram tão sinistros, pegajosos, uma grande confusão pegajosa. Não há como me livrar!
Há anos essa ponte habitava meus sonhos. Uma pedra lavada pela água da chuva e do mar; no pé da serra do mar; na serra do meu sonho. Umas garças alvas passeavam por aqui com suas plumas alvas, escondendo a escuridão da minha alma, indiferentes, caçando seus peixes; e o boteco sempre esteve lá, como se sempre estivesse lá e pronto, parte da paisagem desde tempos imemoriais.
Mas era tudo paisagem e sentimento de mundo. A única que estava sempre ao meu lado era a solidão. O sentimento de solidão sempre foi sólido, muito sólido, sentido nos ossos.
O que eu fiz com a minha vida? Onde estão as pessoas desse planeta? As pessoas de carne-e-osso desse planeta onde estão?
O mundo todo em minhas costas e ninguém de verdade sobre ele.
A coisa mais real da minha vida, desse planeta, é esse copo de rum e coca-cola com gelo. Um copo grosso de vidro, com diâmetro de 8 cm, é ele que está aqui comigo , ele não me abandona enquanto eu não abandona-lo.
Onde estão as pessoas de carne e osso? Elas morreram. Onde estão os amigos que perdi? Os que nunca pude fazer?
Vomito, vomito palavras. Ingiro rum e coca-cola com gelo sob as bênçãos de um escritor maldito qualquer. E vou dormir ao som de uma música apocalíptica esperando pelo fim, pelo começo, esperando pelo fim do peso do fardo, pelo começo da vida nesse planetinha azul, brilhante, corrompido, sedutor, incompreensível, e pela mensagem de paz que a terra me deve.
O mundo está aqui em mim, tatuado, imenso em minhas costas, para eu não esquecer do fardo que carrego…
Estou aqui no mundo, como uma chaga, uma espinha purulenta pronta para explodir. O mundo está em mim como um peso morto de zilhões de quilos nas costas, um fardo inútil que não há como me livrar, descartar. A casa do caramujo que fica pequena demais mas não há como trocar. É necessário carregar e carregar, pra todo lugar.
Esses dias nunca foram tão sinistros, pegajosos, uma grande confusão pegajosa. Não há como me livrar!
Há anos essa ponte habitava meus sonhos. Uma pedra lavada pela água da chuva e do mar; no pé da serra do mar; na serra do meu sonho. Umas garças alvas passeavam por aqui com suas plumas alvas, escondendo a escuridão da minha alma, indiferentes, caçando seus peixes; e o boteco sempre esteve lá, como se sempre estivesse lá e pronto, parte da paisagem desde tempos imemoriais.
Mas era tudo paisagem e sentimento de mundo. A única que estava sempre ao meu lado era a solidão. O sentimento de solidão sempre foi sólido, muito sólido, sentido nos ossos.
O que eu fiz com a minha vida? Onde estão as pessoas desse planeta? As pessoas de carne-e-osso desse planeta onde estão?
O mundo todo em minhas costas e ninguém de verdade sobre ele.
A coisa mais real da minha vida, desse planeta, é esse copo de rum e coca-cola com gelo. Um copo grosso de vidro, com diâmetro de 8 cm, é ele que está aqui comigo , ele não me abandona enquanto eu não abandona-lo.
Onde estão as pessoas de carne e osso? Elas morreram. Onde estão os amigos que perdi? Os que nunca pude fazer?
Vomito, vomito palavras. Ingiro rum e coca-cola com gelo sob as bênçãos de um escritor maldito qualquer. E vou dormir ao som de uma música apocalíptica esperando pelo fim, pelo começo, esperando pelo fim do peso do fardo, pelo começo da vida nesse planetinha azul, brilhante, corrompido, sedutor, incompreensível, e pela mensagem de paz que a terra me deve.

Fluir
Estamos aqui no mundo e o mundo em nós como se fôssemos partículas no cosmo a espera do big bang, do grande caos, do começo do movimento celeste e do movimento individual. Mas a realidade nos arrasta para baixo como um afogado matando seu salvador; como a gravidade que acorrenta os pés dos sonhadores, dos loucos, dos corajosos.
Aqui no planeta o big bang já aconteceu, já evoluímos de moléculas a células, de células a organismos complexos, a sociedades… Já se passaram inúmeras mazelas e muitas ainda virão, já mos encontramos com inúmeros sábios, cientistas, deuses e profetas, enfim, já bailamos muito no movimento celeste e no movimento individual dos seres.
Mas, a certeza de estarmos vivos, no sentido “real” da palavra, no sentido em que a sensação de estar vivo precisa permear a experiências fantasiosas, já não é mais certa.
Estamos aqui com nossos sistemas circulatórios, respiratórios, e digestivos complexos; possuímos diversos glóbulos que nos salvam do varias doenças antes mesmo de adquiri-las, temos nossos membros locomotores e aparelhos automóveis que nos poupam os pés quando a distância é grande; entretanto, estamos aqui, acorrentados ao chão, à terra, às nossas vidas-sem-sentido, estamos aqui, anestesiados, amarrados às rotinas como um gado que ara a terra em movimentos circulares.
A vida outrora foi sinônimo de movimento, e o movimento se dá pela vontade de experimentar a fantasia, é guiado por uma força onírica presente em cada indivíduo e que hoje nos esforçamos por matá-la. Assassinamos o desejo o desejo pela fantasia a todo o momento, rejeitamos a vontade de experimentar, o próprio movimento da vida.
Andamos pelas ruas, topamos com os mais diversos tipos de rostos, às vezes focinhos, outras vezes carrancas. Rostos pasteurizados, resignados; caras abatidas, cansadas; focinhos raivosos e orgulhosos; carrancas estúpidas, outras desiludidas, quase todas desesperadas. Todas essas caras têm em comum a atividade cotidiana de matar, matar o desejo pelo movimento. Estes rostos fazem parte das filas nos ônibus, nos bancos e supermercados, vagos e distantes, pois seus cérebros estão em alguma praia paradisíaca, em alguma lembrança gostosa de infância, em algum café parisiense escrevendo um livro fantástico, em algum desgosto por não ter fugido com o circo ou por não ter ficado solteiro até os 40.
E logo:
- Próximo! – O som das caixas registradoras martela a realidade pra dentro dos cérebros como inspetores de alunos gritando: - Entrem na sala!
Os motores dos ônibus arrancam levando motoristas e passageiros a nenhum lugar ,a lugares em que eles não gostariam de ir, de ter de voltar amanhã e todos os dias subseqüentes.
O mais impressionante é que ninguém corta a corda, ninguém derruba o tronco da árvore, ninguém quebra o arado, ninguém se revolta com as filas ou deixa de subir nos ônibus, mas continuam, continuam desiludidos, desfilando seus focinhos, crendo em seguros-desemprego, boletins de ocorrência e sistema de saúde gratuito. Continuam por aí, impunes, matando a vida.
