Lira Santista

Lira pra acordar dorminhoco, acalentar gente louca, promover o exercício mental, capturar partículas pensantes no ar, divertir, tagarelar bobagens, embalar a vida. Enviem suas contribuições para: lirasantista@terra.com.br

Quando uma borboleta pousa num menino

1 de dezembro de 2011

Viajo muitos quilômetros
Com meu interesse poético sobre as coisas.
Quero pousar, num vôo vacilante de borboleta,
Nas rosas e lírios e no que mais encontrar.

Pousei em você.
Nas tuas cores, nos teus cheiros, nos teus sonhos,
No modo como o vento te embala os cabelos.
Finquei minhas patinhas na pupila dos teus profundos olhos.
Todas as tuas essências
Me inebriam de ternura, de paz e bem!

Vou a teu encontro sempre inacabada
Sem ainda ter me livrado dos meus ascos,
Meus melindros, minhas incertezas, minha tristeza.
Com espanto observo um espaço sendo a mim oferecido.

Estou carregada de bagagens inúteis, querido,
De tanto lixo obscuro, ainda hoje um demônio veio me espreitar
Mas você parece não ter nojo

E este carinho me limpa e me acalma
Cada ternura, cada palavra pronunciada
Me livra duma tristeza, de uma culpa, dum remorso.
Vou caminhando, querido.
Quero ir com você a algum lugar e você tem razão:
Pois não importa onde seja, mas sim o caminho a ele.

O que importa mesmo é este vôo borboletante,
É esta doçura de néctar que atrai borboletas e meninos.

Querido amigo,

28 de novembro de 2011

Querido amigo,

Eu não sou apaixonada por você
Nem te quero pra mim.
Você é bom e eu sei que você também não me quer.

Eu sei bem o lugar que ocupo na tua vida.
Não quero machucar você nem a mim.
Ah! A vida é tão complicada, amigo!
Que eu fico aqui estarrecida
Vendo-a exibir-se diante dos meus olhos!

Eu realmente não sei o lugar que ocupamos no mundo
ou por que as coisas acontecem como acontecem.
Veja, eu amo a vida!
Tanto que quero cometer contra ela um crime passional…

Você é ótimo, e eu me sinto um lixo!
Mas isso não importa, o que interessa
é essa ignorância intransponível
que vejo quando olho da minha varanda,
ou que vejo quando olho pra mim.

Olha, amigo, eu já transpus a barreira do desespero.
Vejo o que o tempo fez comigo e penso:
“e eu só tenho 30 anos…”
O que será do mundo quando eu não estiver mais aqui?
O que será de mim quando o mundo não estiver mais aqui?

Entenda, amigo, Bukowski me ensinou
a reconhecer rostos dementes quando observo
com olhos espantados a janela do meu apartamento.
Eu só ainda não defini se meu rosto também é demente…

amigo, veja o que o tempo faz com as pessoas.
Eu não faço questão do teu amor, nem mesmo do teu respeito.
Mas queria algo! Tem a ver com carinho, ou asco,
ou espanto, talvez ódio.
Eu só sei que amizade não é!

Espelho do Lago

23 de novembro de 2011

Abriu-se esta noite a fenda no espelho.
A água turva como minha confusão
refletiu minha imagem torta
e contemplou-se refletida em minha face.

A lua estava maior que de costume,
os pássaros vieram observar minha luta
e contaram para o vento quem venceu, e eu sei,
soprará na minha janela para eu nunca esquecer.

Havia um peixe no mundo de baixo
me observando de dentro do lago.
Esperando eu puxá-lo pra fora.
Antes preferi absorver a água turva.

O visco e o cheiro na superfície
não me deixam esquecer a dualidade da vida.
Não posso me defender, não quero.
Quero que meu corpo seja envolvido.

Tive medo de me afogar
mas no mundo de baixo tenho guelras.
Então dançamos a dança dos beta,
tragados pela magia do mundo.

Coisa de novembro

15 de novembro de 2011

Sentimento de mundo

Hoje troquei o copo de rum
por um copo de café.
Estou aqui tentando embriagar-me de lucidez.

É tudo muito triste!
O mundo é muito triste,
ainda mais quanto maior for a lucidez.
Que triste é tudo, quão sem solução!

Olho para as águas da Bacia de São Vicente
e a visão ondula nas águas dos meus olhos:
mil amigos mortos; mil amores perdidos;
mil filhos que abdiquei; mil famílias que não compreendi.

O mar ondula.
A chuva cai.
Minha vista transborda.

Qual é a razão disto tudo, afinal?
Deus?
Psiquiatra?
Juiz?
O Fim?

Eu não sei!
Nem posso terminar este poema
da forma habitual:
um suicídio, um desfecho surrealista
convêm a um copo de rum,
não a um de café!

Todos vocês dizem que sou triste, que sou triste.
Ao inferno!
Que há de tão ruim com a tristeza,
seus felicitomaníacos, seus tristofóbicos!?

Oras tenho várias flores em minha varanda,
fiquem vocês sabendo!
Só que elas nunca ficam bem nos meus papéis!

********

Eu sei, eu sei

Que querem que eu escreva?
Que querem que eu faça?
Tudo o que eu vejo da minha varanda
foi moldado pela injustiça, pela podridão.
Os prédios foram erguidos por homens
que se penduraram e caíram;
As ruas pavimentadas com o suor de pobres
que nunca terão automóveis para nelas passar;
Os asilos são depósitos de inservíveis
para a produção incessante do capitalismo;
Os hospitais são bons lugares para se morrer;
As roupas escondem a nudez,
enquanto as violências se exibem livremente.

Que querem que eu escreva?
Que querem que eu faça?
As coisas que já sei tornam-se tão tristes
à medida do tempo que me passa!
Eu sei, eu sei: estou muito cansada de tudo!
Fico aqui observando a crueldade
dos pescadores do píer;
A crueldade dos automóveis;
a crueldade dos prédios; dos hospitais;
dos asilos; a crueldade do mundo.

Aí entristeço,
estristeço mortalmente e escrevo.
Para que vocês digam:
- Como é triste esta moça!
Eu sei, eu sei.

Sobre prioridades do “ser libertário”

25 de outubro de 2011

Eu deixei de acreditar na ação direta quando percebi que minha maior ação direta era o trabalho. Que me põe a serviço de uma ideologia diariamente. Minha maior contribuição física e mental para a sociedade não está no que faço de noite ou nos fins de semana, mas no que fico fazendo o dia inteiro durante 5 ou 6 dias por semana.

O trabalho acorrenta e escraviza 99% das pessoas para que 1% possa viver bem. Um trabalho digno e livre só pode existir numa sociedade digna e livre. E uma sociedade assim só pode existir se houver uma educação libertadora.

Certo! Unir o trabalho digno a este modelo de educação é certamente a melhor opção (sem perder de vista que, enquanto professora funcionária do Estado, ainda que eu pregue uma educação libertadora, meu papel será o de enxugar gelo pois o Estado, em sua própria concepção, é autoritário e aprisionante).

Deste modo, o trabalho do educador libertário é o de um ponto equalizador de forças contra seu empregador – o Estado. É um papel essencial na sociedade.

É lógico que o Estado sabe disso. E sendo maior e mais forte que o indivíduo sozinho, proporciona meios de desestimular e erradicar este tipo de trabalhador de sua Instituição, oferecendo-lhe salários baixos (dentro da lógica comparativa da valoração monetária de classes que o diminui e o ridiculariza perante seus próprios alunos), oferecendo-lhe ainda condições de trabalho indignas e um modelo de escola arcaica e sem credibilidade baseado na autoridade e padronização.

Contudo, não posso criticar o professor que desiste da sala de aula, afinal, ele é o maior alvo de doenças mentais causadas pelo alto grau de estresse que a ocupação lhe imputa. Ser um sonhador, um idealista não o exime de sentir as agruras do estômago e da mente só porque o coração está em paz.

Portanto, abandonei também a licenciatura (embora também sofra, às vezes, de saudade dela) e entrei nos bastidores da educação do Estado como técnica.

Enfim, a ação direta é importante; bem como as manifestações, as pichações, depredações de empresas nojentas – símbolos do capitalismo parasítico, os grupos de estudos, as revoluções armadas contra o poder… Eu já fiz muito disso com mais freqüência do que faço hoje, não me sinto alienada apenas um pouco cansada de tudo que vi…

A única obrigação do libertário é ser livre, é matar o Leviatã dentro dele! Agora, quando os egos forem satisfatoriamente expostos; quando a indignação tiver sido satisfatoriamente extravasada; quando os grupos de estudos tiverem contemplado todos os assuntos sobre liberdade e justiça; quando o poder tiver sido devidamente rechaçado por armas etc… e todos estiverem esclarecidos da necessidade de se criar uma sociedade igualitária e livre para que tudo - inclusive educação e trabalho – possa de fato funcionar e de forma digna, libertadora, justa, aprazível e coerente me chamem que terei imenso prazer em fazer parte disto. Até lá estarei participando aqui e ali daquilo que me envolver sem me esmagar, assim sedutoramente, como malabarismo em tecidos.

Marcella Santos

Reconciliação

18 de outubro de 2011

Estou em um bar dançante de música latina e animada.
Bebo num balcão.
As pessoas riem, dançam, beijam-se.

A alegria não me seduz;
A batida rápida da música
acelera a fúria de minha tristeza
numa intensa agitação
até alcançar um tipo de gozo lúgubre.

Eu conheço este conceito abstrato:
a ‘felicidade’.
Só não a entendo, não a valorizo.

Entre um gole e outro
lembro de um retrato meu na parede da sala:
uma criança sorri
ela não se parece nada comigo
mas sou eu

No que me tornei?
Que outra eu eu poderia ter sido?

Alguém me convida pra dançar,
Atiro-lhe a bebida na cara,
Peço outra ao garçom.

- Mas o que é este mundo, afinal?
Empédocles diria que é tudo fogo, ar, água e terra;
Aristóteles acrescentaria aí o amor e o ódio;
Lavoisier que sou feita de elementos químicos como todo mundo
Resta saber então por que parecemos tão diferentes.
Penso nas variáveis não consideradas:
a consciência de classe;
a alienação ou não, a ignorância ou não;
as experiências de vida;

minha velha e ranzinza alma inadaptada ao mundo.

Subo no balcão e reproduzo aos dançantes
a pergunta de Brahman:
“- Quem sois vós?”

As pessoas riem,
o garçom informa-me com a cruel exatidão da matemática
a quantidade de álcool que já ingeri.

Um jovem empresta sua mão para que eu desça
Explica-me que é um ser humano feito de elementos químicos,
advindo da classe pobre da sociedade,
poucas perspectivas, solitário,
portador de uma excruciante inadaptação à vida.

Torno-me extremamente solidária àquela criatura,
beijo-o, o beijo profundo da sincera cumplicidade.
Abro minha bolsa, pago ao garçom.
O jovem acaricia meu rosto com seu macio sorriso de compreensão.
Sinto-me plena de amor, como jamais estive.
Sei o que deve vir depois.

Rompo-lhe a jugular com meu estilete,
Passo em meu corpo o líquido da vida, banho-me, lavo-me nele
Na necessidade crucial da limpeza da alma,
Na sede do canibal,
Na completude do encontro.

Aí então observo a mágica:

A música é Cambalache de Enrico Discépolo
As pessoas do bar tornam-se iguais a mim,
desesperadas, sem compasso, sem rumo,
tomadas de inquietação, indignação.
O mundo faz as pazes comigo.

Brota em mim um sorriso de plena realização,
as pessoas vêm a meu encontro
compartilhar comigo sua felicidade, sua solidariedade.
Compreendo…

Abro meus braços a elas,
dançamos todos frenéticamente,
em êxtase,
uma dança de Ares, de Scanda, de Shiva
até exaurirmos da dança
e todo o salão ficar devidamente limpo, saciado e completo.

(Marcella Santos)

A rua

13 de agosto de 2011

caminho por uma rua
(vazio)
observando pedaços que por ela encontro
(desesperança)
A rua toda é sempre um pesadelo
(pavor)
mas não há meio de evitar a rua
(impotência)

para cada flor no caminho
(acalento)
dez humilhaçoes estão a me esperar
(violências)
e para cada criança alegre
(esperança)
mil velhos tristonhos as vão sobrepujar
(alienação)

tantas pedras no caminhos
tantos tropeços
(alijar)
não me lembro mais para onde ia
(importância)
às vezes quero ver o que tem no fim da rua
(o caminhar)
e sempre penso que nunhum lugar me vale
(esforços)
e nenhuma eu vale um lugar

Sobre projetos de vida

25 de julho de 2011

As pessoas viram mães/ pais de família. Eu tive de expulsar os pais de família de casa porque eles também significavam maridos. Hoje faço bruxarias, poemas e mosaicos. (Porque criar gatos dá muito trabalho).

Querido

23 de julho de 2011

Você não é algo que eu queira.
Na verdade, não há algo na vida
que eu realmente deseje.
Nem ela própria.

Mas o cheiro e a ondulação dos teus cabelos;
o contorno e a cor dos teus olhos;
o ar de uma juventude promissora;
Todo esse conjunto é uma leve excitação.

É essa meiguice de menino,
uma ingenuidade, hesitação.
Um sei-lá-o-quê vagaroso,
uma onda de mar, frágil, balouçante,
esbarrar com um velho colega de escola,
um encontro imaginado entre Orwell, Azevedo e Gaiman.

Enfim, querido, a vida é uma droga!
Mas tem sempre um sei-lá-o-quê
que vai segurando a gente mais um pouco.
Como se a gente fosse alguém que escuta no rádio a música ruim
esperando a próxima.
Como se a gente fosse um niilista apaixonado
ou só alguém solitário
lidando com a velha tristeza de sempre.

Marcella Santos

Apolo

23 de março de 2011

Em cada um dos teus lindos olhos
verdes
carregas um pouco do melhor de mim,
da minha essência,
da minha vontade de viver.

Meus deuses o trouxeram,
fui arrastada
na doce torrente dos teus olhos líquidos.

O mundo então mostrou-se claro,
numa alva cascata luminosa
que você derramou sobre mim.

Antes eu era noite, agora a vida amanhece
porque encontrei o Astro sol
nos olhos do meu Rei…

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