Estou em um bar dançante de música latina e animada.
Bebo num balcão.
As pessoas riem, dançam, beijam-se.
A alegria não me seduz;
A batida rápida da música
acelera a fúria de minha tristeza
numa intensa agitação
até alcançar um tipo de gozo lúgubre.
Eu conheço este conceito abstrato:
a ‘felicidade’.
Só não a entendo, não a valorizo.
Entre um gole e outro
lembro de um retrato meu na parede da sala:
uma criança sorri
ela não se parece nada comigo
mas sou eu
No que me tornei?
Que outra eu eu poderia ter sido?
Alguém me convida pra dançar,
Atiro-lhe a bebida na cara,
Peço outra ao garçom.
- Mas o que é este mundo, afinal?
Empédocles diria que é tudo fogo, ar, água e terra;
Aristóteles acrescentaria aà o amor e o ódio;
Lavoisier que sou feita de elementos quÃmicos como todo mundo
Resta saber então por que parecemos tão diferentes.
Penso nas variáveis não consideradas:
a consciência de classe;
a alienação ou não, a ignorância ou não;
as experiências de vida;
minha velha e ranzinza alma inadaptada ao mundo.
Subo no balcão e reproduzo aos dançantes
a pergunta de Brahman:
“- Quem sois vós?”
As pessoas riem,
o garçom informa-me com a cruel exatidão da matemática
a quantidade de álcool que já ingeri.
Um jovem empresta sua mão para que eu desça
Explica-me que é um ser humano feito de elementos quÃmicos,
advindo da classe pobre da sociedade,
poucas perspectivas, solitário,
portador de uma excruciante inadaptação à vida.
Torno-me extremamente solidária àquela criatura,
beijo-o, o beijo profundo da sincera cumplicidade.
Abro minha bolsa, pago ao garçom.
O jovem acaricia meu rosto com seu macio sorriso de compreensão.
Sinto-me plena de amor, como jamais estive.
Sei o que deve vir depois.
Rompo-lhe a jugular com meu estilete,
Passo em meu corpo o lÃquido da vida, banho-me, lavo-me nele
Na necessidade crucial da limpeza da alma,
Na sede do canibal,
Na completude do encontro.
Aà então observo a mágica:
A música é Cambalache de Enrico Discépolo
As pessoas do bar tornam-se iguais a mim,
desesperadas, sem compasso, sem rumo,
tomadas de inquietação, indignação.
O mundo faz as pazes comigo.
Brota em mim um sorriso de plena realização,
as pessoas vêm a meu encontro
compartilhar comigo sua felicidade, sua solidariedade.
Compreendo…
Abro meus braços a elas,
dançamos todos frenéticamente,
em êxtase,
uma dança de Ares, de Scanda, de Shiva
até exaurirmos da dança
e todo o salão ficar devidamente limpo, saciado e completo.
(Marcella Santos)
