Lira Santista

Lira pra acordar dorminhoco, acalentar gente louca, promover o exercício mental, capturar partículas pensantes no ar, divertir, tagarelar bobagens, embalar a vida. Enviem suas contribuições para: lirasantista@terra.com.br

Poeminha de uma nota só

12 de setembro de 2009

Olhando através dessa porta de vidro,
seus olhos são maiores que as 9 ou 12 janelas
daquele prédio.
Em compensação, seus olhos vivos
querem menos a vida
que aqueles corpos
habituados a morrer um pouco a cada dia.

Olhos mortíferos tão maiores
que a vida manipulada.
Se tivesses coragem
poria fogo no mundo!

Queimarias nas chamas vivas
de um amor caótico, destrutivo.
Queimarias de coragem
ou mesmo de uma indignação.

Já que és covarde
a pergunta que permanece sempre
é: quanto tempo falta para o fim
do mundo?

Prédios altos
mas pequenos perante o tamanho
de tua cabeça
Para quê tanto concreto e água na Bacia de São Vicente?

Tudo é tão mesquinho e fugaz
que se eu fosse mais egoísta
punha fogo em mim
como ponho fogo no mundo
e deixaria as cinzas
para nenhuma dona de casa limpar
já que o mundo é tão mais sujo
que a cinza ou a minha alma.

Deixaria a família pegar fogo sem dó,
o cachorro morrer da falta de uma vacina besta,
a criança morrer da falta de uma vitamina ridícula,
o irmão e pai morrerm da falta de um carinho medíocre,
a mãe morrer da falta
de uma compreensão desnecessária,
a vida extinguir-se
simplesmente
como lenha molhada
por desleixo

E nenhuma poesia mais seria redonda
pois a vida é sempre quadrada e triste.

Rosto morto

17 de julho de 2009

Observo no espelho d’água um rosto.

Tem os olhos baços de remorso

e a alma suja de humanidade.

Contempla com alguma admiração a natureza.

Tento lavar com a água

olhos e alma

em vão.

No fim,

todo espelho d’água dos lagos

esconde o lodaçal do fundo.

Se o homem é natureza,

a natureza também é sujeira.

Feita a reflexão,

O rosto atravessou o espelho d’água

Como quem entra num portal;

Admirou a loucura por dentro

até atolar rosto e corpo no lodo

pra sempre.

E a próxima reflexão

é a do verme

sobre o paladar putrefato

do rosto.

Nó de madeira

11 de julho de 2009

Tem dias que a gente é um lixo
e tudo cheira a podridão:
o canto do pássaro foi um saco
e o pôr-do-sol hoje tá medíocre

Então a gente tenta mudar tudo
e faz a coisa toda ficar louca
tanto quanto você simplesmente não possa controlar…
arremessa no ar um pedaço de esperança

Mas o dia tá mesmo um lixo
e ele acerta e mata o pássaro,
ofusca o pôr-do-sol pra sempre
e você percebe que é apenas amarrado e imóvel
feito nó de madeira

(Marcella Santos)

Ipsis litteris

22 de maio de 2009

Já dediquei a ti valiosas ônix
que vagaram no meu teto tanto tempo…
Já escrevi poemas em papel,
desenhei-os no ar e em tua pele,
mas sinto que de ti aquela palavra ‘amor’
ficou vã soprada dos teus lábios.
Embora eu tenha sido muito mais fria
fui enormemente mais responsável.
De ti guardo cada expressão,
coisas como a costura torta
do teu casaco do Ramones.
Fingi desprezo mas te amei, te amo.
Você não sabe nada disso.
Andei contigo escondida…
atrás do escudo da insensibilidade.
Fui como aquela do Bandeira
que tem pernas estúpidas
e que nasceu muito tempo depois que os próprio olhos.
Guardei coisas enormes
que não caberiam nestas linhas.
Toda a mágica que te fiz você esqueceu
e a última coisa que quis de mim
foi uma noite insossa com cheiro de cerveja.

Marcella Santos

Confabulações

21 de março de 2009

Olá, pessoas!

Acabo de migrar o blog e ainda não estou vendo os antigos posts, espero que o Terra não me pregue uma peça! Afinal, o Lira Santista já tem mais de 1 ano e eu não gostaria de perder todas as informações, os comentário e as imagens…

Para os antigos amigos quero dizer que andei afastada do blog, da internet enfim, porque estive com problemas com a Telefônica e cancelei o telefone e a net, além do que estive com uns probleminhas pessoais. Mas agora pretendo voltar…

A Revista Mirante, da qual, já sabem, sou colaboradora, já saiu e está em seu número 64. Nela há um poema meu (que já foi postado por aqui), o “Soneto dos Insetos” e um texto para o público jovem sobre a poesia, bem como uma breve retrospectiva histórica. Colocarei aqui em breve.

Semana passada apliquei uma atividade no colégio onde leciono. Era uma produção textual em cima do soneto “Suave Mari Magno” de Machado de Assis. Uma de minhas alunas entregou-me um texto realmente muito bom, que trabalhava com uma linguagem visual, cinematográfica. Enfim, gostei muito. Pedi sua autorização para publicá-lo e fiz algumas alterações quanto à coesão/ coerência. Espero que os colegas leiam e prestigiem!

Ei-lo:

Mari Magno

Dia chuvoso,o belo rapaz anda a passos largos tentando fugir da chuva, preocupado com tantas coisas - contas pra pagar,seus pais que viviam doentes,o namoro em crise e ainda tinha a faculdade e o trabalho.
Ele levantava a cabeça e procurava o caminho que estava tomando,foi quando a viu, ali,no meio da multidão, se esquivando da chuva; Ela vinha com um vestido vermelho, meio cabisbaixa, paracia que estava chorando mas poderia ser somente algumas gotas de chuva que caíam no seu rosto.
Ele não parava de olhar para ela, queria que o visse; Então ela levantou o rosto e olhou diretamente para ele. Deu um sorriso timido. Os dois andavam um para o outro mas havia uma avenida muito movimentada entre eles. O sinal fechou, ele parou mas ela não. Estava tão entretida com aquele estranho que nem notou o carro vindo em sua direção.
Apesar do rapaz ter alertado uns segundos antes não deu tempo dela cair em si e perceber que estava no caminho do carro.
O carro pega a moça em cheio, o sangue começa a escorrer e a se misturar à chuva; ela era tão bonita e branca e com a falta de sangue ficava mais branca ainda. O vestido vermelho e o sangue junto com a chuva no asfalto dexava o jovem excitado, e com uma ponta de arrependimento pelo que tinha acontecido.
Ele tirou o telefone do bolso e ligou para a emergência,logo em seguida passou pelo corpo jogado no chão, olhou, adimirou como tamanha beleza poderia estar presente numa criatura só e foi-se embora, a passos largos, a caminho de casa.

(Rebeca dos Santos Barros - 2A5 - Colégio Martin Afonso - SãoVicente)

Observações

6 de dezembro de 2008

Marcas Profundas

O mundo está aqui em mim, tatuado, imenso em minhas costas, para eu não esquecer do fardo que carrego…
Estou aqui no mundo, como uma chaga, uma espinha purulenta pronta para explodir. O mundo está em mim como um peso morto de zilhões de quilos nas costas, um fardo inútil que não há como me livrar, descartar. A casa do caramujo que fica pequena demais mas não há como trocar. É necessário carregar e carregar, pra todo lugar.
Esses dias nunca foram tão sinistros, pegajosos, uma grande confusão pegajosa. Não há como me livrar!
Há anos essa ponte habitava meus sonhos. Uma pedra lavada pela água da chuva e do mar; no pé da serra do mar; na serra do meu sonho. Umas garças alvas passeavam por aqui com suas plumas alvas, escondendo a escuridão da minha alma, indiferentes, caçando seus peixes; e o boteco sempre esteve lá, como se sempre estivesse lá e pronto, parte da paisagem desde tempos imemoriais.
Mas era tudo paisagem e sentimento de mundo. A única que estava sempre ao meu lado era a solidão. O sentimento de solidão sempre foi sólido, muito sólido, sentido nos ossos.
O que eu fiz com a minha vida? Onde estão as pessoas desse planeta? As pessoas de carne-e-osso desse planeta onde estão?
O mundo todo em minhas costas e ninguém de verdade sobre ele.
A coisa mais real da minha vida, desse planeta, é esse copo de rum e coca-cola com gelo. Um copo grosso de vidro, com diâmetro de 8 cm, é ele que está aqui comigo , ele não me abandona enquanto eu não abandona-lo.
Onde estão as pessoas de carne e osso? Elas morreram. Onde estão os amigos que perdi? Os que nunca pude fazer?
Vomito, vomito palavras. Ingiro rum e coca-cola com gelo sob as bênçãos de um escritor maldito qualquer. E vou dormir ao som de uma música apocalíptica esperando pelo fim, pelo começo, esperando pelo fim do peso do fardo, pelo começo da vida nesse planetinha azul, brilhante, corrompido, sedutor, incompreensível, e pela mensagem de paz que a terra me deve.
O mundo está aqui em mim, tatuado, imenso em minhas costas, para eu não esquecer do fardo que carrego…

Estou aqui no mundo, como uma chaga, uma espinha purulenta pronta para explodir. O mundo está em mim como um peso morto de zilhões de quilos nas costas, um fardo inútil que não há como me livrar, descartar. A casa do caramujo que fica pequena demais mas não há como trocar. É necessário carregar e carregar, pra todo lugar.

Esses dias nunca foram tão sinistros, pegajosos, uma grande confusão pegajosa. Não há como me livrar!

Há anos essa ponte habitava meus sonhos. Uma pedra lavada pela água da chuva e do mar; no pé da serra do mar; na serra do meu sonho. Umas garças alvas passeavam por aqui com suas plumas alvas, escondendo a escuridão da minha alma, indiferentes, caçando seus peixes; e o boteco sempre esteve lá, como se sempre estivesse lá e pronto, parte da paisagem desde tempos imemoriais.

Mas era tudo paisagem e sentimento de mundo. A única que estava sempre ao meu lado era a solidão. O sentimento de solidão sempre foi sólido, muito sólido, sentido nos ossos.

O que eu fiz com a minha vida? Onde estão as pessoas desse planeta? As pessoas de carne-e-osso desse planeta onde estão?

O mundo todo em minhas costas e ninguém de verdade sobre ele.

A coisa mais real da minha vida, desse planeta, é esse copo de rum e coca-cola com gelo. Um copo grosso de vidro, com diâmetro de 8 cm, é ele que está aqui comigo , ele não me abandona enquanto eu não abandona-lo.

Onde estão as pessoas de carne e osso? Elas morreram. Onde estão os amigos que perdi? Os que nunca pude fazer?

Vomito, vomito palavras. Ingiro rum e coca-cola com gelo sob as bênçãos de um escritor maldito qualquer. E vou dormir ao som de uma música apocalíptica esperando pelo fim, pelo começo, esperando pelo fim do peso do fardo, pelo começo da vida nesse planetinha azul, brilhante, corrompido, sedutor, incompreensível, e pela mensagem de paz que a terra me deve.

Fluir

Estamos aqui no mundo e o mundo em nós como se fôssemos partículas no cosmo a espera do big bang, do grande caos, do começo do movimento celeste e do movimento individual. Mas a realidade nos arrasta para baixo como um afogado matando seu salvador; como a gravidade que acorrenta os pés dos sonhadores, dos loucos, dos corajosos.
Aqui no planeta o big bang já aconteceu, já evoluímos de moléculas a células, de células a organismos complexos, a sociedades… Já se passaram inúmeras mazelas e muitas ainda virão, já mos encontramos com inúmeros sábios, cientistas, deuses e profetas, enfim, já bailamos muito no movimento celeste e no movimento individual dos seres.
Mas, a certeza de estarmos vivos, no sentido “real” da palavra, no sentido em que a sensação de estar vivo precisa permear a experiências fantasiosas, já não é mais certa.
Estamos aqui com nossos sistemas circulatórios, respiratórios, e digestivos complexos; possuímos diversos glóbulos que nos salvam do varias doenças antes mesmo de adquiri-las, temos nossos membros locomotores e aparelhos automóveis que nos poupam os pés quando a distância é grande; entretanto, estamos aqui, acorrentados ao chão, à terra,  às nossas vidas-sem-sentido, estamos aqui, anestesiados, amarrados às rotinas como um gado que ara a terra em movimentos circulares.
A vida outrora foi sinônimo de movimento, e o movimento se dá pela vontade de experimentar a fantasia, é guiado por uma força onírica presente em cada indivíduo e que hoje nos esforçamos por matá-la. Assassinamos o desejo o desejo pela fantasia a todo o momento, rejeitamos a vontade de experimentar, o próprio movimento da vida.
Andamos pelas ruas, topamos com os mais diversos tipos de rostos, às vezes focinhos, outras vezes carrancas. Rostos pasteurizados, resignados; caras abatidas, cansadas; focinhos raivosos e orgulhosos; carrancas estúpidas, outras desiludidas, quase todas desesperadas. Todas essas caras têm em comum a atividade cotidiana de matar, matar o desejo pelo movimento. Estes rostos fazem parte das filas nos ônibus, nos bancos e supermercados, vagos e distantes, pois seus cérebros estão em alguma praia paradisíaca, em alguma lembrança gostosa de infância, em algum café parisiense escrevendo um livro fantástico, em algum desgosto por não ter fugido com o circo ou por não ter ficado solteiro até os 40.
E logo:
- Próximo! – O som das caixas registradoras martela a realidade pra dentro dos cérebros como inspetores de alunos gritando: - Entrem na sala!
Os motores dos ônibus arrancam levando motoristas e passageiros a nenhum lugar ,a lugares em que eles não gostariam de ir, de ter de voltar amanhã e todos os dias subseqüentes.
O mais impressionante é que ninguém corta a corda, ninguém derruba o tronco da árvore, ninguém quebra o arado, ninguém se revolta com as filas ou deixa de subir nos ônibus, mas continuam, continuam desiludidos, desfilando seus focinhos, crendo em seguros-desemprego, boletins de ocorrência e sistema de saúde gratuito. Continuam por aí, impunes, matando a vida.

Poemeta da triste realidade sobre a Revolução

27 de outubro de 2008

Quem somos nós?
Máquinas orgânicas na era da informação!
Procurando por nada, sem saber o que procurar.
Somos pedaços de gente
Fragmentos que se perderam por aí
Entre carros,
nas brumas da fumaça envenenada.
Espíritos vagando sem luz,
Corpos vagando sem espírito
Povos da terra, sem-terras.
Somos criaturas dignas de piedade
Perdidos em tantas convicções,
Convencidos de coisa alguma

A revolução por essas bandas
É feita de clubes
Velhas casas de paredes negras
Repletas de frases de ordem que nada ordenam
Aqueles têm seus clubes de regatas
E nós temos nossos clubes da luta
Que andam falando de revolução
Só falando.

Somos todos umas piadas sem graça
Estamos todos tão ridículos
Tão contraditórios e ridículos!
Pedantes
Inertes
Suicidas

 Aqueles sonhos da adolescência
Tão utópicos
Tão verdadeiros
Foram diluídos não sei onde

Os ridículos e os rebeldes inertes
Repetem em seus clubes que é preciso se mover
Mas não dizem a direção
Eles também não sabem
E não sabem que é de utopia que se faz a realidade
É de seguir a utopia
É de construir a utopia
Cadê aquele lugar?
A Terra Prometida?
Shangrilá?
O Paraíso?
Anarkilópolis?
Simplesmente paramos de procurar

Casa nova

24 de agosto de 2008

Aqui

Faz alguns anos eu imaginei como seria estar aqui. Minha sacada não dá para Copacabana embora a vista da Bacia de Santos seja ainda mais bela, sem cheiro de classe média da novela da Globo e praias menos fúteis que as do Rio.
A lua mancha de prata as águas negras. Da sacada do meu primeiro andar eu tenho vontade de ser Ismália… Louca como Ismália, livre como Ismália. Essa lua, penso, é aquela mesma de Copacabana, de Paris, do mundo, dos povos, através dos tempos. Generosa e linda sem fazer distinção de classe social. É aquela mesma que eu observava da janela da minha casa aos 10 anos no subúrbio da cidade. A única diferença é o contorno, tanto desfocado, devido menos ao esquecimento dos óculos que ao passar dos anos.
Aqui é lindo demais, aquele boteco na boca da Ponte Pênsil, com cheiro de álcool, chão sujo de vômito de bêbado é a prova de que o capitalismo ainda não comprou tudo, ainda não encheu tudo de burguesia, não enfiou ainda suítes, terraços com churrasqueiras e garagens privativas em todas as praias.
Eu gosto de ver as putas daqui, enchendo o ar de perfume barato, tropeçando seus saltos nos paralelepipedos que imitam os subúrbios italianos. Senhoras do boteco, da orla, da rua.
Os índios que vivem na próxima praia e passam pela minha rua são outra prova de que o mundo ainda pode reservar a nós, os renegados, parte de sua beleza.
Viver tem sido ora prazeroso, ora triste, e impreterivelmente solitário, densamente solitário, carcerariamente solitario, paraliticamente solitário, desesperada e enlouquecedoramente solitário.
"O que é aqui?" - É a pergunta que ando me fazendo. O que é aqui além do mar, da lua e da minha solidão? O que é aqui onde cheguei e pra onde vou se ainda não é esse meu lugar, se ainda aqui não encontreiminha terra prometida, meu estado permanente de felicidade?

Sentimento de mundo

Essa é apenas a segunda lata de cerveja barata e o contorno da lua já apresenta-se indefinido. Os óculos já não fazem mais falta, tanto faz. Tem feito falta a falta de sanidade nas janelas dos prédios que observo. Se tivesse uma luneta veria os rostos dementes de Bukowski, os rostos sem rostos das pessoas mortas das janelas.
O que é esse lugar, pra onde vai esse lugar e essas pessoas semi-mortas da minha cidade? Tem sido um desperdício, um desperdício de matéria orgânica a vida de tanta gente nesse planeta lindo. Qual a diferença entre termos ou não nascido, para o mundo ou para nós mesmos?

ocaso

A perua vermelha chega, seu motor de fusca fazendo o mesmo barulho que sempre faz, pontualmente às 6 da manhã quando tento dormir. Dela sai o gordo - apesar de ter vivido pensando no dinheiro, conseguiu da vida só a maldita perua vermelha, velha e barulhenta.
Ajeita as calças na cintura e anda, trôpego de bebida ou é manco mesmo, não sei. Vai até a porta da garagem.
O porteiro tira os pés da pequena janela, sai de sua guarita, desliga a tv portátil, desce os dez degraus da escada até a rua para ajudar com a manobra mas o velho não ia entrar.
Aperta-lhe a mão e fica na porta, olhos distantes, ouvindo, decerto, futilidades, pensando em seu jogo desligado: Brasil x Camarões.
A conversa demorou algum tempo. O Brasil perdeu de 1 x 0 e o porteiro, que ainda não sabe o resultado, ainda tem que esperar pelo vira-latas do velho e seu cocô ritualístico.
É notável como as pessoas não dão conta das próprias vidas. Para que cachorro se não se pode esperar-lhes seus cocôs? O microcosmo do mundo é mesmo essa escultura feita pelo totó - uma bosta.
Sobe os dez degraus, aperta o botão do 208, o velho aparece na guarita, recebe a coleira do cão com o cão, vai embora.
O porteiro suspira, senta na cadeira de madeira, liga a tv, deposita os pés na janela, põe os olhos na tv, tira os pés da janela, bufa para a janela do 208, pega um saco plástico, desliga a tv, desce os dez degraus, apanha o microcosmo do mundo e deposita-o na lixeira. Entra na guarita, apóia os cotovelos no balcão e diverte-se com as pernas do 320 que sobem as escadas agora.

Histórias em Quadrinhos

4 de junho de 2008

O texto abaixo surgiu de um (polêmico) tópico na comunidade do Lira no orkut (vide: http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=38844044&tid=2555050197278981836&start=1) depois da discussão eu pedi ao Rafael para escrever um artigo sobre o assunto (uma vez que sua monografia é sobre quadrinhos) e saiu o texto abaixo, que - diga-se de passagem - foi muito bem escrito e assume um compromisso com a pesquisa e a informação.

HQs: Ainda há algo para se provar?

Ao abordar um assunto como histórias em quadrinhos, é preciso estar preparado para uma rajada de opiniões ignorantes, preconceituosas e despóticas. O tema exige tanta paciência e traz tanta polêmica a tona quanto debater política ou religião.
Vamos deixar bem claro, de uma vez por todas: HQ não é coisa de criança. Esse errôneo e constante pensamento comum em muita gente vem atazanando a indústria dos quadrinhos e os seus fãs há longa data. A indústria, por desejar ampliar sua fatia de mercado e gerar ainda mais lucro. Os fãs, por quererem provar o valor de sua leitura e não ser mais taxados como nerds bitolados.

Porém, desde a década de 80, esse mito vem caindo por terra, cada vez mais. Pelo menos, para os que se mantém ligados no que acontece no mundo dos quadrinhos. Para quem observa de fora, os mais desatentos e desavisados, continua tudo a mesma coisa. A culpa é da falta de vontade, falta de curiosidade de se aprofundar nesse meio. Ao menos conhecer antes de criticar.

Voltando aos anos 80, o apogeu dessa nova era dos quadrinhos deu-se com o lançamento de Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons. A história aborda temas adultos e tem um tom severo ao falar de traição, adultério e uma intensa crítica social, com um fundo político e referências à literatura convencional, filmes, cenário político e cultura pop em geral. A obra foi aclamada pela crítica e muito bem recebida pelo público.

Somente aí as histórias em quadrinhos passaram a ter um novo status, recebendo um pouco mais de atenção das elites intelectuais e passaram a ser aceitas como uma forma de manifestação artística com características próprias. Os anos 80 ainda reservaram ótimas surpresas e uma boa leva de histórias em quadrinhos adultas e intrigantes, tais como Mister X, Batman O Cavaleiro das Trevas, A Piada Mortal, Sandman, Orquídea Negra, Maus, Tartarugas Ninjas (sim, era uma HQ adulta, com bastante violência, roteiro bem amarrado e linguagem inapropriada), dentre outras. Como se não bastasse, vários quadrinhos tiveram suas adaptações para desenhos, seriados de TV e filmes, inclusive, muitas vezes, com consultoria e/ou produção dos próprios criadores.

 

Vieram então, os anos 90, e os ânimos se esfriaram um pouco com relação a bons títulos publicados.
No entanto, nesse novo século, as histórias em quadrinhos retomaram seu posto em grande estilo. É quase uma unanimidade o novo status dos quadrinhos, agora considerados como gênero literário. Uma prova concreta dessa mudança foi o fato de a HQ “American Born Chinese” ter vencido o Eisner Awards 2007 (Prêmio mais importante do mundo dos quadrinhos) como Melhor Álbum Gráfico, o colorista do mesmo álbum ter sido agraciado com o Harvey Awards 2007 e por consequência, a inédita e histórica indicação ao National Book Award (A mais importante premiação literária dos Estados Unidos e uma das mais tradicionais do mundo) como melhor literatura infanto-juvenil. Desde 1950, quando ocorreu a 1ª Edição do Prêmio, jamais uma HQ tinha sido indicada em categoria alguma.

Cada vez mais, editoras estão aprendendo a lidar com as HQs como literatura, dando a devida qualidade gráfica para o merecido trabalho dos desenhistas, arte-finalistas, roteiristas, etc. Por falar nesses últimos, a Sétima Arte também está dando o devido valor para os autores de quadrinhos, contratando-os com cada vez mais frequência para roteirizar e até dirigir e/ou produzir filmes (baseados ou não em suas criações) com a costumeira e alta verba de Hollywood. Quem se deu melhor nesse quesito foi Frank Miller, autor de Cavaleiro das Trevas, Ronin, 300 de Esparta e Sin City. Ele roteirizou para o cinema Sin City, produziu e roteirizou 300 de Esparta e irá roteirizar, dirigir e produzir Ronin, além de The Spirit, criação de outro ícone dos quadrinhos, Will Eisner. Outras excelentes obras foram ou estão sendo adaptadas para o cinema (infelizmente, em alguns casos, sem o brilhantismo à altura), como V de Vingança, Watchmen, Procurado, 30 Dias de Noite, Persépolis, Do Inferno, A Liga Extraordinária, Os Intocáveis, 100 Balas, Y: O Último Homem, Whiteout, Boiled.

Não vamos nos esquecer de mencionar o uso dos quadrinhos no auxílio ao ensino. Mais alguns importantes passos foram dados nos últimos anos. No Brasil, vemos projetos interessantes, de transformações de gênero literário, para atrair e facilitar o aprendizado, quadrinizando obras importantes. Além disso, o Ministério da Educação recentemente soltou uma lista de HQs que irão ser enviadas para as bibliotecas das escolas.
Pois é, tudo leva a crer que as histórias em quadrinhos não precisam provar mais nada. Mesmo assim, elas continuarão a fazê-lo.

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Rafael Prieto

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Valeu Rafael! Obrigada pelo belo texto! O Lira e a literatura agradecem.

É isso aí pessoas! Inté!

Jardim de inverno

17 de maio de 2008

Eterno

Venho, venho cansada, descrente,
Ando descontente e me tornei amarga.
Aqui o mundo me tem esmagada
E um rei louco usurpou o reino do bom senso.

Fico, fico cativa, impotente,
Tenho arrastado, empertigada, as correntes.
Empurrando as pedras que rolaram em mim
E dizendo ao povo que o rei, “o rei é louco!”

Dói, consumindo, a dor caminha comigo.
De tão só já fiz amiga a solidão.
Cavalos bravos puxam-me em cada direção
E o povo também ficou louco

Rompem-me em muitos pedaços.
Por não ter corrompido fico em estilhaços
A luta pra mim está perdida
O povo está morto e o rei usurpando outros tronos…

(Marcella Santos)

Estéril

Naqueles tempos também eu era frágil,
Eu era principalmente frágil e triste.
E depois de tanto caminhar ainda estou na escuridão.
A distância é uma constante perpétua
Tem levado meus amigos e minha vontade.
‘Dolorosos’ é a palavra que descreve esses anos.

Aos meus amigos que me são tão caros
meu parco despertar cobra retorno.
Pede ser a mãe de acalento para as noites órfãs,
Espantando angústia, amargura e solidão,
Para que ajude a nutrir dias de luz.
Quer fertilizar um ventre oco, morto, inútil.

(Marcella Santos)

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